M.o.r.t.e.
IV

Só entre mim e a cauda de cavalo dele vão ficar:
fotografias, pirilampos, insetos no ar, pêlos no colchão,
algodão, curtos-circuitos, e a ausência de paz.
Você me contou naquele dia cinzento
que se chamava água-da-vida a cachaça que matou Pessoa.
Água-da-vida fez um rombo no fígado dele,
Água-da-vida o levou pra dentro da língua, de nós.
Movimentos, estrelas, barcos soltos pela casa,
os cheiros do teu corpo: você pintado, óleo sobre a tela,
tua boca dizendo: adoro cerejas.
Refazer o passado é morrer.
Os cadernos estão descendo na chuva,
aqui, arrisco ficar guardada,
por isso me molho lá fora, na nebulosidade azul-branca-borrada,
roxa, muita, tanta, quanta saudade de ti.
Sinto saudades de ti e é sempre como se desembaçasse vidros molhados de chuva.
Sempre, sempre, sempre: que palavra linda!, é tempo de retê-la na boca lentamente,
mastigar, conhecê-la, devolvê-la à língua.
Amanhã, não agora: nesse tempo úmido que se fecha sobre nossos corpos
e se abre sobre o mundo.
Amanhã, te peço, te falo no escuro,
amanhã aconteceremos, dentro da chuva.
Há de haver alguma chuva,
penso, quero, decido: amanhã.

Comentários

  1. imangens e palavras...Eu também " te falo no escuro"

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